Hiperadrenocorticismo
O hiperadrenocorticismo (HAC) ou Doença de Cushing é um distúrbio endócrinofrequente que manifesta sinais clínicos e anormalidades bioquímicas resultantes da exposição crônica ao excesso de glicocorticoides. Pode surgir espontaneamente (hipofisário e adrenocorticotrófico) ou ainda pela administração excessiva de glicocorticoides (iatrogênico).
O HAC geralmente acomete cães de meia idade a idosos, contudo o HAChipofisário pode ocorrer em cães jovens. As raças predispostas são: Poodle,Dachshund, Beagle, Boxer e Boston Terrier, porém outras podem ser acometidas.Apesar de não apresentar predisposição sexual o HAC de origem adrenal é maiscomum em fêmeas (70% de ocorrência). Os sinais mais comuns de HAC são:poliúria, polidipsia, que podem ser indicativos de diabete melito secundário; polifagia, devido ao aumento do catabolismo proteico e lipídico; respiração ofegante, ocasionado pela fraqueza da musculatura abdominal; alopecia, hiperpigmentação dapele, úlcera gástrica, em razão do aumento da secreção de ácido clorídrico epancreatite, gerada pelo aumento da produção de enzimas gástricas e insulina, alémde atrofia testicular e infertilidade na fêmea (FELDMAN, 1999, NICHOLS, 1998).
Além da observação do histórico e dos sinais clínicos, exames como hemograma,perfil renal, perfil hepático e urinálise devem ser solicitados. No hemograma éobservado leucograma de estresse e hiperglicemia, no perfil renal a creatininaaumentada e uréia diminuída poderão estar presentes, sendo que o mesmo ocorrecom a ALT e AST no perfil hepático. Na urinálise, glicosúria e proteinúria estãopresentes. A dosagem de ACTH e cortisol são importantes e também deverão serrealizadas (NELSON, 2001, CHASTAIN, 1997). Na radiografia abdominal pode-seevidenciar hepatomegalia, distensão vesical, metástases abdominais emineralização dos tumores da adrenal. Na radiografia torácica poderá estar presentecalcificação de traquéia e brônquios, metástases pulmonares, cardiomegalia direita etromboembolismo pulmonar. No exame de ultrassonografia o tamanho e forma dasadrenais poderão ser analisados. Atomografia computadorizada e a ressonânciamagnética revelam tumores adenohipofisários maiores de 1cm, sendo os examesmais precisos para imagem das adrenais.
As principais técnicas utilizadas para o diagnóstico do hiperadrenocorticisomo são o radioimunoensaio,imunoensaios enzimáticos equimioluminescência. Somente a dosagem do nível basal de cortisol não tem valor diagnóstico, devido ao fato de que tanto o cortisol quanto o hormônio corticotrófico (ACTH) são secretados esporadicamente, o que leva a ocorrência de valores mais altos ou mais baixos de acordo com o período do dia (FELDMAN e NELSON, 2004). Por este motivo são necessárias provas específicas para o diagnóstico desta enfermidade, tais como o teste de supressão pela dexametasona e a estimulação pelo ACTH.
Teste de supressão pela dexametasona: A dexametasona é um potente glicocorticóide sintético que, quando administrado em pequenas doses, normalmente suprime a liberação de ACTH e, conseqüentemente, do cortisol. Portanto, esse teste baseia-se no fato de que o eixo hipófise-adrenal mostra-se resistente à supressão induzida pela dexametasona nos pacientes com hiperadrenocorticismo. Em animais normais e naqueles com hiperplasia idiopática cortical adrenal, o cortisol plasmático é reduzido para <1μg/dL 8h após a injeção IM de 0,01mg/kg de dexametasona, sendo que também se recomenda a análise de amostra coletada 4h após a aplicação da droga. A supressão apenas parcial do cortisol plasmático (duração de 3 a 6 horas) ocorre quando há hiperplasia cortical adrenal associada a tumores funcionais hipofisários, sendo que nenhuma supressão significativa acontece em animais com tumores funcionais do córtex adrenal. Uma alta dose de dexametasona no teste de supressão pode ser benéfica na diferenciação dos casos questionáveis de excesso de cortisol ocasionados por tumores funcionais hipofisários, daqueles originados por um tumor do córtex adrenal. Os níveis de cortisol, na maioria dos animais com tumores hipofisários tornam-se diminuídos com esta dose mais elevada do medicamento, ao passo que não há depressão quando o excesso de cortisol é causado por tumores funcionais do córtex adrenal.
Teste de estimulação pelo ACTH: o teste de estimulação pelo ACTH baseia-se no fato de que, tanto animais acometidos por adenomas hipofisários (secretores de ACTH) quanto os que possuem tumores adrenocorticaisfuncionantes, apresentam uma resposta exagerada à estimulação pelo hormônio corticotrófico e podem ser diferenciados daqueles animais saudáveis.
O diagnóstico diferencial da causa do HAC é indispensável para orientar o Médico Veterinário na condução do tratamento.
Hipoadrenocorticismo
O hipoadrenocorticismo ou Síndrome de Addison é uma endocrinopatia pouco freqüente em cães e mais incomum em gatos. Pode ser classificada de acordo com a origem em hipoadrenocorticismo primário e secundário. O hipoadrenocorticismo primário caracteriza-se pela deficiência na secreção de glicocorticóide (cortisol) e mineralocorticóide (aldosterona) pelo córtex adrenal, causada geralmente por destruição imunomediada desta glândula. No hipoadrenocorticismo secundário (menos freqüente) tem-se secreção deficiente de glicocorticóides em conseqüência ao déficit hipofisário de ACTH. É importante ressaltar que a secreção de glicocorticóides pelas adrenais é estimulada pelo ACTH. Na falta deste hormônio, a camada fasciculada do córtex adrenal (camada responsável pela produção de glicocorticóides) sofre atrofia. A produção de mineralocorticóides está preservada, uma vez que a camada responsável pela sua produção (camada glomerulosa do córtex adrenal) não é controlada pelo ACTH, mas sim pelo sistema renina-angiotensina.
Os sinais clínicos são muito variáveis e dependem da severidade e da evolução da doença. Alguns cães apresentam sinais crônicos e intermitentes (por exemplo, êmese e diarréia) enquanto que outros apresentam quadros agudos e chegam ao hospital veterinário em choque (hipotensos, bradicárdicos e hipoglicêmicos). As alterações clínicas não são específicas e sim comuns a uma variedade de outras doenças. No entanto, deve-se suspeitar de hipoadrenocorticismo crônico quando uma doença tem seus sintomas exacerbados pelo estresse e respondem a tratamentos inespecíficos e à terapia de suporte.
O diagnóstico baseia-se nos achados clínicos, exames laboratoriais complementares (hiponatremia, hipercalemia, hipoglicemia e hipostenúria) e teste funcional. Ainda que os sinais clínicos estejam presentes e os exames complementares sejam compatíveis com hipoadrenocorticismo, um diagnóstico definitivo requer a comprovação do mau funcionamento da adrenal. Para tanto, utiliza-se um teste funcional (teste de estimulação com ACTH).
