Diagnóstico Clínico-Laboratorial da Erliquiose Canina
26 de janeiro

A erliquiose canina é uma doença causada por bactéria gram negativa intracelular, a Ehrlichia canis, que pertence ao grupo das ricketsias, transmitida pelo carrapato Rhipicephalussanguineus. De ocorrência mundial, a erliquiose canina apresenta uma incidência variável, de acordo com a distribuição do vetor.

As descobertas da erliquiosegranulocítica humana (EGH), causada porEhrlichiasennetsu e o isolamento da Ehrlichiachaffeensis em seres humanos, mostraram que a erliquose não é apenas um problema veterinário (FISHBEIN et al., 1994). Recentemente foi descoberto que o agente causador da EGH também pode infectar naturalmente várias espécies animais (DAGONE, A.S. et al., 2001).Da mesma forma, a erliquiose canina pode ser patogênica para seres humanos. Os organismos causadores de erliquiose humana são virtualmente indistingüíveis das espécies que acometem os animais (WILLIAMS, 1999).

O curso clínico da doença em cães é delineado em três estágios:

1º estágio: agudo – O estágio inicial ou agudo da infecção inclui os sinais clínicos inespecíficos que podem ser suaves e podem passar despercebidos pelo proprietário. Alguns cães apresentam apetite diminuído, febre e letargia. Ao exame clínico, o médico veterinário pode detectar linfadenopatias e esplenomegalia. O decréscimo na contagem de plaquetas é o achado hematológico mais consistente. Em alguns casos observa-se pancitopenia e inclusão de mórulas de Ehrlichia em leucócitos. Mesmo sem tratamento, a maior parte dos cães pode sair deste estágio. Aqueles animais que não eliminaram a ricketsia do organismo podem entrar no segundo estágio da infecção.

2º estágio: subclínico – Pode perdurar por um período indefinido e, normalmente, é assintomático. O tratamento correto neste estágio, especialmente em animais de alto risco, é importante, a fim de impedir o progresso da doença.

3º estágio: crônico – Não está claro por que os animais passam do estágio subclínico para o crônico de erliquiose. É sabido, entretanto, que depois de alcançado esta fase o tratamento é ineficaz. Os sinais clínicos da erliquiose crônica incluem: letargia, febre, inapetência, perda de peso, tendência a sangramento e finalmente morte.

As variações clínicas que ocorrem durante as três fases da erliquiose canina (Fig. 1) determinam a necessidade de um cuidado especial dos médicos veterinários e proprietários de animais com essa enfermidade.

Figura 1. Dinâmica dos sinais clínicos, contagem de plaquetas e título de IgG nas três fases clínicas da erliquiose canina. Adaptado de Waner, T. 1999.

Figura 1. Dinâmica dos sinais clínicos, contagem de plaquetas e título de IgG nas três fases clínicas da erliquiose canina. Adaptado de Waner, T. 1999.

O diagnóstico de erliquiose canina é baseado nos sinais clínicos durante os estágios agudo e crônico. Apesar da diminuição das plaquetas ser um achado bastante importante, a trombocitopenia não ocorre somente na erliquiose. Portanto, testes específicos para a enfermidade devem ser usados para a confirmação diagnóstica. Especialmente durante o 2o estágio da doença, quando não há manifestações clínicas nem hematológicas, a confirmação do diagnóstico deve ser baseada em testes imunológicos.

Os exames imunológicos devem ser interpretados pelo veterinário, de acordo com o quadro clínico apresentado pelo animal no momento da realização do exame (quadros 1 e 2).

Quadro 1: Recomendações para interpretação de um teste imunológico para diagnóstico da erliquiose canina em animal clinicamente sadio.

RESULTADO DO EXAME SEM HISTÓRICO DE E. canis COM HISTÓRICO DE E. canis
Não Reagente Checar no próximo ano Checar no próximo ano
Indeterminado Testar novamente em 7 a 10 dias Comparar o último resultado para checar o declínio dos títulos de anticorpos. Considerar avaliação do hemograma
Reagente Estágio subclínico. Considerar avaliação hematológica. Iniciar o tratamento se a contagem de plaquetas for inferior a 200.000/mm3 A avaliação do hemograma é recomendada. Repetir o tratamento se a contagem de plaquetas estiver <200.000mm3

Obs.: Os títulos elevados de anticorpos podem persistir por 6 a 12 meses, ou mais. A contagem de plaquetas é útil para avaliar o estado clínico atual, a resposta ao tratamento e a reexposição do animal ao agente.

Quadro 2: Recomendações para interpretação de um teste imunológico para diagnóstico da erliquiose canina em animal com sintomatologia da doença.

RESULTADO DO EXAME SEM HISTÓRICO DE E. canis COM HISTÓRICO DE E. canis
Não reagente Considerar outro diagnóstico; avaliar o hemograma; testar novamente em 7 a 10dias Considerar outro diagnóstico; avaliar o hemograma; testar novamente em 7 a 10 dias
Indeterminado Considerar outro diagnóstico; avaliar o hemograma; testar novamente em 7 a 10 dias Considerar outro diagnóstico; avaliar o hemograma; testar novamente em 7 a 10 dias
Reagente Diagnóstico confirmado, estágio agudo, iniciar o tratamento, avaliar hemograma Um resultado positivo pode estar associado com o estado clínico atual

Obs.: Altos títulos de anticorpos também podem ocorrer nas fases aguda e crônica. A avaliação do hemograma é sempre recomendada.

EXAMES REALIZADOS PARA AUXILIAR NO DIAGNÓSTICO DA ERLIQUIOSE:

EXAME MATERIAL
Hemograma com contagem de plaquetas

Pesquisa de Ehrlichia

ELISA (teste imunológico)

sangue com anticoagulante

sangue com anticoagulante

soro sanguíneo (SEM ANTICOAGULANTE)

Referências

Dagnone, A. S., Autran, H.S.M., Vidotto, O. Erliquiose nos animais e no homem. Semina: Ci. Agrárias, Londrina, v. 22, n.2, p. 191-201, jul./dez. 2001.

FISHBEIN, D.B.; DAWSON, J.E.; ROBINSON, L.E. Human Ehrlichiosis in the United States, 1985 to 1990. Annals of Internal Medicine , v.120, n.09, p.736-743, 1994.

WANER, T.; HARRUS, S. Canine MonocyticEhrlichiosis(CME). In: CARMICHAEL, L.E. (Ed.) Recent Advances inCanine Infectious Diseases, International VeterinaryInformation Service (www.ivis.org). [on line]. Disponívelem:<http://www.ivis.org/advances/Infect_Dis_Carmichael/waner/chapter.asp>.Acesso em: 08 jan. 2011.

WANER, T. et al. Characterization of the subclinical phaseof canine ehrlichiosis in experimen-tally infected beagledogs. Veterinary Parasitology, v.69, p.307-317, 1999.

WILLIAMS, B. Species jump: Human ehrlichiosis- Mutant or Emergence? [online]. Disponível em: <http://www.doofus.org/mercatroid/Ehrlichia.htmL>. Acesso em: 8 jan. 2011.





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3 Comentários em “Diagnóstico Clínico-Laboratorial da Erliquiose Canina”

  1. Leinad disse:

    Parabéns pelo texto. Muito didático e esclarecedor

  2. marilia rocha disse:

    Texto objetivo principalmente para os leigos no assunto.Informações esclarecedoras.

  3. Nádia kerly disse:

    Parabéns, Dr. Daniel. Excelente texto,objetivo e esclarecedor para nos ajudar em nosso trabalho como clínicos, especialmente, no que diz respeito aos exames laboratoriais. Obrigada.

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